... E já se despedia, correndo para apanhar o comboio. À aquela hora, naquele local, para entrar naquela porta e não noutra, os mesmos de ontem, tirando alguns que perderam o anterior ou estão fora do seu horário. Encontrou rostos familiares e ao mesmo tempo, distantes de si. Arranjou espaço, viu-se forçado a isso, a partilhar a viagem entre corpos amontoados. O comboio vinha particularmente cheio. Por isso partilhou toda a viagem, com um braço de uma senhora no seu peito e umas costas de alguém a embaterem constantemente no seu lado esquerdo. Não colocou os phones para se encontrar em alguma música, não tinha espaço para ler o jornal de «5 folhas» gratuito, que se encontrava à entrada da estação, não fazia nada a não ser observar o que o rodeava.
Tinha herdado este prazer desde a altura da faculdade, quando percorria algumas das linhas do metro de Lisboa. Desde então nunca mais perdeu o vício, de utilizar os transportes para observar mais pormenorizadamente os rostos que se atravessavam na sua vida.
Hoje sentia-se a sufocar, porque sempre se sentiu mal em espaços fechados, mas o que mais o incomodava era mesmo o constante toque e calor humano que ia tendo. Estava a perder as forças, até que reparou numa mão, branca esguia, parecia suave, unhas de vermelho escuro, a quem pertenceriam? Não lhe interessava, preferiu imaginar o rosto, do que tentar descortinar entre as pessoas que ali se encontravam. Observava o movimento cadente da mesma, de uma forma embriagada, até a perder de vista e foi ai que tomou consciência, que estava a chegar.
Saiu... nem olhou para trás...